A felicidade em tons de cinza já lhe era tão familiar que ele, sem nem mesmo perceber, lhe dedicava alguma insólita simpatia.
Há qualquer sorte de alegria na tristeza, pensava.
E talvez fosse preciso recorrer aos meandros caóticos do paradoxo para melhor traduzir o que há muito sentia.
Horas havia, no entanto, em que calar melhor o aprazia.
Sim, sim. Amante antigo do silêncio, o Menino.
Achava que espremer significados para caber em meros significantes era sempre insano crime de almas loucas, desvairadas. Como fazer caber o que nos transborda e afoga? Vão sacrifício esse, o de a todo custo conter o que quer jorrar.
Daí a sua não rara opção pelo não dizer, apenas sugerir... Realista de fachada, simbolista na essência: o pretérito mais-que-perfeito o ensinara que importante, mesmo, era o que explodia por dentro. Sempre. No matter what.
E ele, de fato, era todo explosões naqueles seus dias de silêncio.
Quem o visse, por fora, jamais conseguiria supor o campo de batalha que carregava em seu peito.
Ao som de tiros de metralhadora, o Menino engolia o choro interno para não ter que explicá-lo, depois, ao mundo.
Não tinha mais a necessidade, no fundo, de se fazer entender.
Alguns poucos havia que o entendiam e isso lhe bastava.
Ser compreendido é das coisas mais felizes e raras que alguém pode receber.
E aquele Menino, na realidade, nunca fizera mesmo muito sentido. Seria uma hipótese? Matéria fluida demais entre entre o ser e o não estar. Parecia de vapor, o pobre! Desfazia-se no ar como miragem no deserto.
Perto, afinal, era um lugar onde ele não sabia ficar.
Não podia!
E não-estar era cinza.
Daí a estranha simpatia pelo meio-tom.
Cinza era a cor das nuvens carregadas de chuva e a vida, lá fora, chovia tanto.
Melhor era não entender e apenas esperar que alguma paz caísse do céu, junto com os pingos d´água.
Choventender a vida era só o que lhe ocorria.
Choventender a vida era só o que lhe ocorria.

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