sábado, 22 de novembro de 2014

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Hoje não há, em meu mundo, lugar para grandes inspirações nem ideias capazes de comover.
Não há palavras doces, bonitas, que transformem a descrença e o cinza em algo menos dolorido ou mais mascarado, tão ao gosto da hipocrisia dominante.
Sim, senhores: o dia, hoje, tem a secura das reticências numa folha em branco.
Quem quiser que a preencha.
Quem quiser que lhe dê - ou empreste, tanto faz! - alguma corzinha de que não esteja precisando mais em seu estojo imaginário de lápis de cor.
Hoje o dia tem sabor de fumaça, cor de desânimo e ares de pedra.
Sem delicadezas.
Hoje, vital, só a mais pura e honesta opacidade.
Justo a mim, sempre tão afeito ao brilho.
E aos sorrisos e às aleluias.
Porém, hoje, nada.
Nada além da chuva.
A chuva e o frio - que ainda não está tão intenso como gostaria que estivesse para me adormecer os ânimos.
Estou cansado e com fome.
Só tenho forças, contudo, para um banho brusco e para ser engolido pela cama.
O sono me venceu.
Talvez Deus me acorde, amanhã, com café na cama e um largo sorriso que ressignifique de pronto o meu olhar para a vida.
Não estou triste, permitam-me esclarecer.
É que gozo de um amor pleno e, em presença de algo assim, nunca se pode estar totalmente triste, como sabem.
Dei é pra ficar cinza.
E isso é tudo.
Estou um pouco só, também.
Mas há no mundo quem me ame e esteja, neste exato momento, pensando em mim.
Isso é uma alegria, sem dúvida.
Decerto que, amanhã, eu me lembrarei disso e abrirei um fugidio sorriso.
Enterrarei a momentânea tristeza como quem enterra um cadáver que já começa a se decompor.
Hoje, no entanto, isso.
Preciso chegar logo ao final desse sentimento se quiser virar a página sem deixar máculas ou interrogações para amanhã.
Se hoje estou nublado, preciso respeitar essa minha vontade de ser vela apagada.
Quero chover.
Muito.
Chover tudo o que precisar.
Porque quando as nuvens pesadas se esvaírem, tenho certeza: meu coração se abrirá em sorrisos como o Sol se abre em calor ao raiar de um novo dia.
Insisto no que disse há pouco, se não se lembram: eu amo.
E quem ama nunca perde o rumo, embora, às vezes, perca o sentido.
Quem ama sabe sempre pra onde e pra quem voltar.
E, por mais que se decepcione com o mundo, sempre haverá uma aleluiazinha interna a que se voltar, momento único de inspiração divina.
O amor, penso eu, é a face mais bonita de Deus.
Mas Deus, hoje, se envergonharia de mim e da minha opacidade de criatura desinteira.
Durmo, então, pra não contrariá-lo mais nem me entristecer sobremaneira.
Eu que, apesar dos pesares, juro: não quero ficar triste.
Eu que também não queria falar, mas já me excedo em franca verborragia.
Queria ter parado nas reticências do título mas...
Não adianta. Eu sou insistentemente além. Além a nado. Alienado alguém.
Pronto regresso. Promessa.
No mais, isto:

"Haverá um dia..."

A esperar.

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