Antes de dormir, enquanto tomo meu último copo de leite do dia, gosto de estar à varanda da área de serviço e, escorado no parapeito, dar boa noite à vizinhança, ao céu, à lua...
Deixar-me encantar pelo misterioso céu vermelho, com nuvens esbranquiçadas - às vezes, de poluição, às vezes, de chuva mesmo - e ficar reconhecendo ao redor os sinaizinhos todos de vida que se manifestam nas luzes acesas das outras janelas, através dos vidros, revelando detalhes-relâmpago do curioso universo familiar alheio: a TV ligada, a avó na poltrona, a moça estendendo roupa, o japonês lendo o jornal na sacada, a adolescente sozinha, no quarto, diante da tela luminosa de mais um computador-barquinho a navegar pelos mares da virtualidade...
O vento, então, sopra gelado, contrastando com o quentinho da xícara e pressagiando a madrugada fria, seguida da preguiça maior na hora desengonçada de me levantar.
Uma semana acaba, outra logo se inicia e o girar da ciranda tem de continuar.
Penso logo em todos os queridos aos quais, neste instante, queria desejar, pessoalmente, boa noite.
As faces risonhas nas quais desejaria, agora, delicadamente pousar meus lábios num beijinho de "bons sonhos, durma com Deus"...
Coisa, essa, das mais simples e, contudo, impossível diante do longe, da ausência, do intocável.
Sopro, então, um beijo imaginário ao vento e, com o pensamento, multiplico-o em vários, teleguiados, prontos para, por gentil encomenda, sob as coordenadas do coração, atingirem ligeiro os seus destinatários.
Sorrio uma última vez ao cenário urbano e me preparo para, logo mais, sonhar com lindos campos verdejantes, repletos de flores, riachos, recantos, na companhia, claro, do Amor, e de todas as outras prendas a que mais quero bem nesta vida minha.
O céu vermelho, repleto de nuvens brancas, não sei se de chuva, não sei se de tristeza, não sei se de poluição, me dá sua benção e deseja "Bons sonhos, Menino!"
Agradeço, reverente, a delicadeza, e retribuo com o desejo sincero de uma noite tranquila.
O Deus, das alturas, a esta hora, joga um cobertor imenso de amor sobre todas as criaturas.
Na hora de dormir, nossos anjos da guarda nos esperam a postos para nos contar lindas histórias. Eles nos pegam pelas mãos e nos conduzem, serenos, a um país onírico, lindo, onde não existem a distância, a ausência e o medo.
Um país a que todos regressaremos um dia, quando acordarmos, de sobressalto, do sono da vida.

Nenhum comentário:
Postar um comentário