sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Sessão de terapia


"He wants to play seek and hide, no one to hide behind... Naked."


"Meu querido, pense no seguinte: o ser humano é metade divino e metade barro. Aceitar o que nós temos de divino não é esforço algum! É mágico, é excitante, é 'reluzente', como você diz. Difícil é aceitar o barro. O defeito, o erro, a imperfeição. Você parece não ter aprendido a lidar com sua porção 'barro', ainda. E, não a aceitando em você, você também não consegue aceitá-la no outro. A mensagem que fica na sua cabeça é: todos devem, como eu, potencializar o divino e desprezar o barro - o que seria audácia demais, porque aí seríamos completamente 'deuses' e não teríamos mais nada de humano, concorda? O que você tenta obstinadamente ser não existe. Conforme-se! E já que gosta tanto do divino, que tal aprender amar o barro, também? Aceite o barro que há em você. Aceitar o barro do outro será mais fácil, depois. Suas intenções podem ser as melhores do mundo, mas fixar-se no divino faz de você muito mais alguém "ideal" do que propriamente um homem, um ser humano de verdade. Você não quer passar pela vida como um 'Gasparzinho', quer? Pra quê julgar e condenar tanto as coisas e as pessoas a partir de seus modelos de perfeição, senhor semideus? Em que você é melhor do que eles, já parou para pensar? Que estranho status é esse que lhe confere tal poder de julgamento a ponto de dizer a todo instante o que tá certo ou errado na fulana, no ciclano e no beltrano? Você não dá conta nem do seu barro, rapaz! Você vira as costas pra ele! E não é porque não aceita o seu que vai ficar condenando o do outro, viu?! Deixe-o fazer o serviço que você está deixando pra amanhã. A 'luz' e o 'brilho' existem? Existem! Ótimo pra você. Só que ninguém consegue chegar muito perto de tanto brilho e de tanta perfeição. Santos, meu bem, são ótimos: devidamente entronados no altar de alguma igreja! Mas esse não é nosso caso, não é? Anda! Vai brincar na lama, menino! Depois você volta aqui e me conta como é de-li-ci-o-so e libertador se lambuzar até a alma!"
E ele queria ter memória para lembrar de todo o resto. O essencial, contudo, estava ali, registrado num texto que datava de 2003, em plena turbulência existencial dos seus 23 anos.
Lembrou-se de achar interessante, naquela época, aquilo que a terapeuta lhe dissera acerca do "divino" e do "barro". Levou para a vida. Tratava-se, então, de uma velha reflexão ilustrada por uma nova metáfora. Quem é que sabia alguma coisa da vida aos 23 anos, afinal? Andamos aos trancos e barrancos, esbarrando e nos surpreendendo com os contundentes e indiscretos golpes do sempre inesperado óbvio! - pensou. Ainda hoje, sentia, era presa fácil das suas frágeis ilusões.
Aquilo valia, então, pelo registro de uma face que um dia fora sua. Um pedaço muito distante do complexo todo que hoje ele entendia ser. "Eu somos muitos", disse a si mesmo, fechando, contemplativo, o antigo diário.

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