Testemunhava o final de mais um dia com terna melancolia a lhe perturbar o coração.
Sabia que a noite lhe traria ainda outros motivos para transformar sono em desalento.
Queria poder se inspirar com o pouco que alcançava do brilho já quase oculto das estrelas. Um dia, anos atrás, ensinaram-lhe a fazer pedido àquela que fosse a mais reluzente delas. Hoje, contudo, não faria pedido, se a avistasse. Faria uma serenata: compartilharia, sob a forma de música, um pouco do amargo-doce de suas palavras.
Haveria mais calma no desarticulado pensamento que incendiava suas esperanças?
Atirava-as ao fogo da preocupação sem a menor pena: disso brotavam poemas, sublimação real de seu eterno desejo de desvanecer.
Não ser era uma quimera: qualquer futura primavera haveria de regalar-lhe tal presente. Ausente se faria maior. Inalcançável sentiria pertencer.
Aquilo que é restringe-se ao ser. Fica acorrentado a uma temporalidade que inexoravelmente o obriga a um antes e a um depois. Há tempos sorria para a atemporalidade. Necessidade de alma que nunca se permitiu prender a um corpo. Pouco a pouco, sabia: morria no correr dos dias a sua essência.
Olhava para vida como quem a observa de fora, tomando-a por espetáculo do qual nunca pretendeu participar. Achava mais graça observar da coxia. Entrava e saía de cena sem que nem sequer lhe notassem a fantasmagórica presença.
Colecionava interrogações no teto do quarto: eram tantas e de tamanhos tão diferentes que, se iluminadas, dariam a impressão de representar, em maquete, o universo. Desse absurdo ele era o dono, orgulhava-se.
E se não o dessem por louco, talvez achassem que de todas as suas incongruências se poderia construir, com algum engenho e arte, um imenso não-castelo de desfantasias fragmentadas.

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